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jun. 11 2012

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Argentina pede ajuda à Comissão da Verdade

Fazer a revolução onde fosse possível, segundo os ideais de Che Guevara. Assim pensava Enrique Ruggia, 18, nascido na Província argentina de Corrientes, em 1956. Estudante de veterinária e simpatizante do peronismo, Enrique se juntou em Buenos Aires a um grupo de militantes brasileiros que vinha do Chile e rumou para o Brasil.

Era o ano de 1974. Na Argentina ainda não começara o período de chumbo da ditadura (1976-1983), mas já estava em ação a Triple A, força repressora que atuou no governo de Isabelita Perón. Junto aos irmãos Joel e Daniel Carvalho, mais dois colegas, todos da Vanguarda Popular Revolucionária, Enrique atravessou a fronteira entre a Argentina e o Brasil. Quando chegou à cidade de Medianeira (PR), o grupo foi parado pelo Exército brasileiro. Todos foram executados.

Apesar de a morte de Enrique ter sido reconhecida posteriormente pelo governo brasileiro, seu corpo nunca foi localizado. Agora, com a Comissão da Verdade no Brasil, sua irmã Lilly quer retomar a busca pelos restos do jovem. “O caso de Enrique sempre foi deixado em um segundo plano, pois ele não estava nem lá nem cá. Era considerado um argentino numa luta brasileira. Além disso, foi morto antes da ditadura, um período ainda nebuloso para a história deste país”, disse.

Ela conta que já fez investigações sobre os lugares onde o corpo de Enrique poderia estar, perto de Foz do Iguaçu, mas foi em vão. “Preciso de ajuda. Nunca recebi apoio, sequer uma ligação, nem do governo argentino nem do brasileiro. Quem sabe agora.” Junto com familiares de outros mortos argentinos na ditadura brasileira (1964-1985), Lilly pretende apresentar uma queixa sobre a Operação Condor [aliança das ditaduras do Cone Sul] à comissão criada pela presidente Dilma.

Segundo levantamento da historiadora Stella Calloni (“Operación Condor – Pacto Criminal”), com base nos arquivos dos países do Cone Sul, há sete casos de argentinos desaparecidos no Brasil.

Além de Enrique constam os nomes dos montoneros [grupo guerrilheiro ligado à extrema esquerda do peronismo] Norberto Habegger, Horacio Domingo Campiglia, Monica Suzana Pinus, Gregorio Bergstein, Lorenzo Viñas e do sacerdote Jorge Adur.

A maioria fazia escala no país ao voltar do exílio no México ou na Espanha. Muitas das prisões foram feitas no aeroporto do Galeão, no Rio. É o caso do jornalista Norberto Habegger, que tinha 37 anos em 1978, quando foi preso no Rio e enviado a um centro de detenção clandestina de Buenos Aires. Seu corpo também jamais apareceu.

“Eu vivia no México, exilada, com nosso filho de 8 anos. Norberto não queria largar a militância, então permaneceu na Argentina. Estava voltando de uma visita à família quando o prenderam”, conta Florinda Habegger, 70, sua viúva, em Buenos Aires.

Habegger era da democracia cristã e sua referência era o padre colombiano Camilo Torres (1929-1966). Precursor da Teologia da Libertação, Torres integrou a guerrilha Exército de Libertação Nacional e morreu em combate.

“Eu particularmente era contra a luta armada, mas Norberto a justificava usando os argumentos que eram utilizados nessa época pelos religiosos revolucionários.” Para Calloni, a perseguição a militantes pertencentes ao Cone Sul no Brasil começou no princípio dos anos 70. “Havia muito trânsito de revolucionários, militantes e simpatizantes nas fronteiras e aeroportos. A Operação Condor chegou a um estágio avançado de capacidade de vigilância e de operações para prisão e devolução aos países de origem”, afirma.

Ela cita como exemplo da atuação conjunta entre Brasil e Argentina a prisão do prêmio Nobel argentino Adolfo Pérez Esquivel no Brasil, em 1975. Esquivel foi levado ao Dops (Departamento de Ordem Política e Social) e depois a um calabouço, onde, vendado, escutava gritos de pessoas sendo torturadas. Teria sido libertado após a ação de d. Paulo Evaristo Arns. Para Calloni, a Comissão da Verdade no Brasil pode elucidar os desaparecimentos dos argentinos e a localização dos corpos. “Muita coisa pode vir à tona se tivermos acesso pleno aos arquivos.”
Fonte- Folha de S. Paulo


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