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abr. 15 2013

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O documentário e os gritos do coronel

Um grave acontecimento ocorreu no fechamento das expedições do Grupo de Trabalho Araguaia (GTA), que envolve os Ministérios da Defesa, Justiça e Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República: a tentativa de agressão de um oficial-militar, o coronel Cordeiro contra Gilles Gomes, assessor da Ministra Maria do Rosário e um dos principais coordenadores da missão que tem a responsabilidade apurar as circunstâncias das mortes, como, também, localizar e identificar os desaparecidos políticos na Guerrilha do Araguaia.

Tal expedição, a quinta e última de 2012, que localizou uma ossada humana, perfazendo um total de nove achados no ano, contou, ainda, com a presença da incansável Maria Rita Kehl, da Comissão Nacional da Verdade e coordenadora do Grupo de Trabalho sobre a violação dos direitos humanos dos camponeses e indígenas.

O estopim do contencioso ocorreu em função da exibição do documentário “Araguaia – Campo Sagrado”, de Evandro Medeiros, nas dependências do Hotel Itacaiúnas, em Marabá, local escolhido pelo GTA para realizar os relatórios das missões por ter um amplo auditório capaz de albergar os representantes ministeriais, geólogos, médicos legistas, arqueólogos, antropólogos, familiares de desaparecidos, militares, membros do Ministério Público Federal, representantes de universidades e instituições de pesquisa, além de ouvidores independentes e do PCdoB.

A película, cuja narrativa aborda os duros acontecimentos da invasão militar ao sul do Pará para sufocar o mais importante evento de resistência ao regime dos generais, a guerrilha do Araguaia, organizada na clandestinidade pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB) entre 1972 a 1975, é contundente pelos depoimentos de camponeses, ex-mateiros e soldados que atuaram naquele episódio.

A insubmissão araguaiana é conhecida tanto pelo heroísmo dos guerrilheiros como, também, pela violência desmedida da repressão política contra brasileiros, sejam militantes políticos que lutavam pelo restabelecimento das liberdades públicas, seja contra indígenas e camponeses, vítimas quase sempre anônimas no enredo dos acontecimentos. Houve, seguramente, mais de 350 mortes até a debacle do movimento comunista. Tais números, mórbidos, excedem em muito a história contada até aqui.

O filme, de cinquenta minutos, promove o segundo encontro, agora imagético, das figuras do ex-mateiro Sinésio Martins, já falecido, e do guerrilheiro-camponês, Jonas. O primeiro encontro de ambos se deu nas matas fechadas e ali, em 24 de novembro de 1973, na região do Pau Preto, São Geraldo, é morto o guerrilheiro, o “Ari”. Ambos estavam lá, de armas nas mãos, em lados opostos e, cada um a sua forma, narram o fato que fora encerrado com o corte de cabeça daquele insurgente, ainda desaparecido.

Outro aspecto contundente do documentário é a denúncia do assassinato do ex-mateiro Raimundo Clarindo do Nascimento, o “Cacaúba”, em junho de 2011. Tal rastejador, um dos mais importantes na caçada militar no Araguaia, silenciou por mais de trinta anos e apenas em maio daquele ano é que começou a falar o que sabia. Em fins de junho apareceu morto depois da visita do Major Curió na Serra Pelada, onde morava. Excluído da reunião dos ex-guias com o antigo chefe, revelou saber que sua vida estava em risco. Na época denunciei o ocorrido num artigo, “Relatos de um homem morto”.

O inquérito aberto pela polícia civil paraense concluiu que o “Cacaúba” fora morto por latrocínio, roubo seguido de morte. Ocorre que aquele homem vivia em absoluta pobreza e ganhava os poucos tostões vendendo bananas num dos lugares mais miseráveis do país brasileiro.

Evandro Medeiros que, além de cineasta é professor do Campus de Marabá da Universidade Federal do Pará (UFPa) revela a descoberta de uma oração escrita de próprio punho por Osvaldo Orlando da Costa, o lendário “Osvaldão”, e que por muitíssimos anos foi guardada, em segredo, por uma camponesa em São Geraldo do Araguaia/PA. Através de seu filme podemos ver a letra do comandante negro das matas, verdadeiro herói de nossas liberdades públicas.

O filme, pulsante, recorta as tradições religiosas da festa do Divino Espírito Santo, na Serra dos Martírios/Andorinhas, que revela um Brasil culturalmente profundo com suas ladainhas e bandeiras e, através da narrativa de Euclides Pereira de Souza, o “Beca”, podemos compreender o suplício de milhares de homens e mulheres atingidos pelos golpistas que assaltaram o poder em 1964.

Mas o que deve ter incomodado mesmo o oficial-militar fora a fala de um ex-soldado, Raimundo Melo, da primeira geração de soldados recrutados na própria região do Tocantins-Araguaia pelo Exército brasileiro em 1974.

No artigo “Sobre lobos e meninos” de fins de fevereiro de 2011, assim os caracterizei: ” Passaram suas vidas com os lobos rondando seus telhados, humanidades e consciências. Um deles sente, por todos os malditos dias, o sangue de uma cabeça cortada percorrendo suas costas e seus caminhos e quer se libertar para resgatar toda uma vida que não foi e que nunca poderá ser se não disser o que sabe, o que viu, o que sente”.

O fato é que Cordeiro, o coronel, invisível até então, equilibrado até então, revelou uma prática e visão de mundo dos tempos de Garrastazú Médici, que está em contradição com as forças armadas na democracia. Será que ele acha mesmo que os ex-soldados, muitos dos quais bestializados pelos superiores terão suas almas agrilhoadas eternamente aos rigores da caserna?

Esbaforido e nervoso gritou, no meio da sessão de cinema, orientando grosseiramente que todos os seus subordinados se retirassem dali para a perplexidade geral do cineasta, de familiares, técnicos, militares e representantes do governo federal. Como se não fosse o bastante tão triste espetáculo de intolerância, ainda tentou agredir fisicamente o representante da SDH, Gilles Gomes. Só não logrou sucesso pela intervenção do representante do Ministério da Defesa que, enfim, impediu qualquer ação contra aquele servidor público.

Houve até a tentativa de suspender a exibição do filme, o que me fez lembrar de “Je vous salue marie”, de Jean Luc Godard, e que contava a história de um cristo contemporâneo, com dilemas plenamente humanos e atuais. Decididos, asseguramos a conclusão do documentário e, ao final, explodimos em aplausos.

Será que o coronel se sentiu desrespeitado pelo fato de que o filme narra o que verdadeiramente aconteceu no regime militar?

Quero crer que tal mentalidade, recalcitrante, seja minoritária entre nossos oficiais-militares e que o ato do coronel, de intimidação, seja exemplarmente punido e combatido dentro dos quartéis.

Tranquilo e pedagógico, o cineasta e professor Evandro Medeiros, ao final, conclamou, todos, a reflexão de que “a igreja católica é muito maior do que as inquisições da idade das trevas e o exército é muito maior do que os violentos da ditadura militar de 1964”.

Ali, a seu modo, com a serenidade que os tempos atuais exigem, deu uma lição aos brasileiros que lutam para desenvolver nossa dimensão democrática e revelar, de uma vez por todas, os acontecimentos dos anos-de-chumbo. Só assim estaremos avançando no progresso espiritual deste imenso povo dos trópicos.

É por isso que gosto de gente, de inteligência e de cinema de guerrilha.

Fonte- Por Paulo Fonteles Filho


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