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nov. 18 2013

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Circunstâncias da Morte do Presidente João Goulart

Quando recebi a notícia de que meu tio João Goulart havia falecido, encontrava-me em Búzios, no litoral do Rio de Janeiro. Era uma segunda-feira de manhã e preparava-me para voltar ao Rio, onde estudava. Após comunicar-me com meus pais em Montevidéu (Leonel Brizola e Neusa Goulart Brizola), apressei o retorno para viajar imediatamente a Porto João Goulart mortoAlegre e, por terra, para São Borja, onde consegui carona com meus primos.

Chegamos no dia seguinte, antes do meio-dia. O cenário já estava armado. O acesso à igreja, cercada pelo Exército e PMs, restrito, um caixão lacrado, e dezenas de sinistros agentes com óculos escuros perambulavam pela igreja. Ali, encontrei a tia Maria Teresa (esposa de Jango), minha mãe Neusa, outras tias e pessoas que haviam conseguido “furar o cerco”. O ambiente era de devastação total. Após alguns minutos fui com minha mãe à casa de um amigo e ela contou a triste odisseia que foi a viagem desde Villa Mercedes. Ficaram retidos mais de três horas na fronteira por ordem de um tal de “Coronel Negrão” que fez questão de mostrar seus poderes ditatoriais a toda comitiva.

Ainda contado por minha mãe, ao chegar a São Borja, foram preparar o corpo e, ao abrir o féretro, havia uma estranha secreção em todo o corpo (É necessário esclarecer que havia outras pessoas que testemunharam este momento e o assunto foi comentado muitas vezes). Imediatamente, por ordem dos militares, aí sim, o caixão foi lacrado e não mais aberto (Seriam estas as 48 horas?). O exército não queria permitir que fosse colocada uma Bandeira Nacional, mas prevaleceu nossa vontade. A Bandeira foi posta, assim como uma grande faixa pedindo “Anistia”. No trajeto ao cemitério, a PM quis transportar o caixão em um carro mas a multidão não permitiu, gritando aos militares que ele seguiria “nos braços do povo”. Todos nos revezamos entre a igreja e o cemitério de São Borja.

O percurso foi emocionante e, mesmo desafiados e xingados, os militares não tiveram coragem de intervir. Havia mais de vinte mil pessoas. Acho que foi a primeira grande manifestação popular no Rio Grande do Sul depois do AI-5. No final, discursaram o Sr. Pedro Simon, que somente falou da vocação política de São Borja (…), e Tancredo Neves, este, sim, pediu a conciliação nacional de forma veemente. Não me lembro de outros discursos mas guardei a sensação de que a ditadura tinha sido desafiada naquele momento final.

A última vez que vi meu tio foi em Maldonado, pouco tempo antes, e não notei nada de anormal. Em setembro de 1976 ele foi visitar a mãe e conversou a noite toda com meu pai depois de mais de dez anos afastados. Foi o único encontro entre eles… Vários episódios estranhos aconteciam naquele tempo: Meu pai tinha uma vida discretíssima e praticamente morava na fazenda. Queixava-se constantemente de que o seguiam, mas nada poderia fazer. Em setembro de 1977 foi expulso do Uruguai em episódio que todos conhecemos.

Minha opinião, que presenciei os fatos, é que o caso Jango tem todos os ingredientes para ter sido mais um assassinato da ditadura. Por que não tomar um depoimento oficial do Sr. Neira? Ele não está preso? Por que não pedir aos governos argentino e uruguaio, que tanto têm se empenhado em esclarecer os crimes da ditadura, uma investigação minuciosa dos fatos?
João Otávio Goulart Brizola

Texto extraído da página 445 do livro 68 a geração que queria mudar o mundo relatos organizado por Eliete Ferrer e publicado pela Comissão de Anistia do Min. da Justiça.

 


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