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jul. 02 2014

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O futebol no tempo da ditadura: entrevista com o historiador Gerson Wasen Fraga

O historiador Gerson Wasen Fraga é professor na Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) – Campus Erechim e se ditadurafutebol2dedica a pesquisar as relações do futebol com a história brasileira. Autor da tese de doutorado “A Derrota do Jeca na imprensa brasileira: nacionalismo, civilização e futebol na Copa do Mundo de 1950″, já publicou uma série de artigos em que analisa o futebol brasileiro no período da ditadura militar (1964-1985), como “Futebol, imprensa e ditadura: das formiguinhas de Geisel à abertura de Telê”, no qual analisa os usos, pela ditadura, do tricampeonato mundial em 1970 e do Mundialito em 1981 no Uruguai. Já deu as caras no Impedimento em 2013, nos brindando com um artigo sobre as mudanças no perfil do torcedor brasileiro.

Nesta entrevista, Gerson Fraga analisa questões que vêm à baila quando o assunto é futebol e ditadura no Brasil: o uso político do tricampeonato pelo regime, a construção de estádios no projeto de integração nacional, a submissão em clubes e federações e os episódios e espaços de resistência, entre outros temas. Foi uma entrevista por e-mail realizada ao longo das duas últimas semanas, o que permitiu  novas perguntas a partir de respostas do entrevistado.

(Daniel Cassol)

Como se deu a relação do futebol com a ditadura militar no Brasil. Que imagem pode sintetizar esta relação?

Antes de mais nada, é necessário estabelecer que o uso político do futebol por ditaduras, regimes militares e governos autoritários não inviabiliza o espaço ou a prática do futebol  como espaço ou atividade de resistência. Se são diversos os casos que podem ser apontados onde regimes de exceção buscam se apropriar dos bons resultados de seleções ou equipes para fins de propaganda (poderíamos falar da Itália em 1934/1938, da Argentina em 1978, ou do Real Madrid durante o Franquismo), também muitas são as ocasiões em que os gramados e arquibancadas serviram para manifestar a oposição e a inconformidade (a “democracia corintiana”, os catalães falando seu idioma nas arquibancadas do Camp Nou, a postura marcadamente anti-imperialista de Diego Maradona, entre outros exemplos). O futebol não é algo isolado da sociedade, logo, também reflete as muitas contradições e interesses que lhe cercam. Neste sentido, a militarização das estruturas do futebol e sua utilização como instrumento de propaganda pelo regime militar em 1970 é algo que deve nos dizer muito sobre o caráter autoritário conferido às estruturas sociais brasileiras, em uma época onde uma postura de oposição poderiam significar a prisão, a tortura e a morte. Se poucos eram os espaços de manifestação opositora no cotidiano, poucos seriam os espaços de manifestação opositora no cenário esportivo. Era evidente que a conquista do título pela seleção brasileira poderia ser utilizada como instrumento de boa propaganda por parte do governo junto à população. Em primeiro lugar, o futebol há tempos já usufruía do status de símbolo nacional, capaz de mobilizar o sentimento de pertença a uma coletividade. Isto não é algo criado pelos militares, mas é algo passível de ser utilizado por qualquer governo. Mas há um outro fator, que é a criação de uma imagem que ligue o selecionado vitorioso ao povo. Neste sentido, promover um discurso que exalte a disciplina de um grupo vitorioso e sua submissão ao comando técnico é uma ação didática no sentido de tentar provar que estes elementos – disciplina e submissão, entendidos enquanto manutenção da ordem vigente – são fatores fundamentais para fazer do Brasil um país vitorioso também fora dos campos esportivos. A relação assim é discursiva, artificial, mas encontra grande repercussão porque é largamente difundida pela grande mídia (que apoia constantemente a ditadura) através da TV, do rádio e dos jornais, e aponta não somente para o uso que o regime faz da conquista, mas para o apoio que encontrava para que estas imagens pudessem chegar de forma didática até o brasileiro comum. Dentro disto, se tivesse que escolher um símbolo, apontaria para a foto do presidente Médici “batendo uma bolinha” com o selecionado brasileiro após a conquista de 1970. Não apenas pela imagem que está na foto, mas também por saber que há um interesse por trás desta imagem, que a capta e posteriormente difunde entre a sociedade brasileira

Concretamente, como se deu esse uso político da seleção brasileira tricampeão em 70 pela ditadura militar?

Inicialmente através da propaganda, criando uma relação entre a imagem do selecionado vitorioso, a imagem do regime e a imagem da própria nação. A seleção teria sido vitoriosa pois estaria imbuída das características positivas que definiriam o “bom brasileiro”: disciplina, trabalho, cooperação, amor à pátria. Não por acaso, há matérias na imprensa nesta época que buscam comparar à resistência armada à ditadura com os adversários brasileiros na Copa (especialmente os tchecos e romenos, então integrantes do mundo socialista). Opera-se assim uma construção discursiva onde aos opositores do regime é negado o pertencimento à nacionalidade, transformando-os assim em rivais a serem batidos na caminhada rumo ao progresso, uma vez que a estes faltariam as características definidoras do “verdadeiro brasileiro”, que fora campeão no México e que agora trabalhava para que a nação conquistasse seu progresso econômico. Logo, ações mais práticas seriam tomadas, dada a capacidade aglutinadora do futebol em torno de um sentimento coletivo. Não podemos dissociar este momento de larga repressão do surgimento do campeonato nacional, organizado sistematicamente a partir de 1971. Da integração em torno do selecionado campeão partíamos agora para um torneio onde todo o país pudesse estar representado, expondo suas diversas identidades regionais que, somadas, formariam o grande caldeirão da brasilidade. O futebol é visto portanto como um instrumento de integração, e esta integração pressupõe a associação a um projeto político e econômico de nação.

 

Em artigo recente na Folha, Tostão diz que se incomoda com os comentários de que a Seleção de 70 foi usada pela ditadura e lembra que ele deu uma entrevista ao Pasquim criticando a ditadura. Existe hoje uma cobrança injusta e exagerada aos jogadores da época por não terem denunciado a ditadura e de certa forma terem jogado o jogo? Não existe injustiça contra o Pelé, por exemplo, como se ele tivesse outra alternativa na época?

Sinceramente não vejo esta “cobrança exagerada”. A reificação da pátria em selecionado não é algo assim tão direto na mentalidade das pessoas. Que os governos recebem as delegações esportivas vencedoras é algo que até hoje pudemos ver. E isto não significa que estes atletas sejam apoiadores destes regimes. Seria como acreditar que o futebol é verdadeiramente o “ópio do povo”. As posições políticas individuais dos jogadores, evidentemente, constituem outro departamento.

O uso político de uma seleção pelo governo não é exclusividade das ditaduras, certo? Neste sentido, há diferenças entre o que houve em 1950, em 1970 e no Mundialito no Uruguai em 1981? E nos títulos mais recentes da Seleção Brasileira (1994 e 2002)?

Certo. O uso do esporte em geral, e do futebol em particular, como instrumento de propaganda é algo que no caso brasileiro remete ao período Vargas, quando este percebe sua capacidade de mobilização popular. Ficaram famosas, neste sentido, as celebrações do Primeiro de Maio no estádio de São Januário ou os discursos presidenciais transmitidos pelo sistema de som no mesmo estádio durante os intervalos das partidas. Vargas, por exemplo, recebe a seleção de 1950 antes do início do certame, apresentando-se assim não somente como mais um torcedor (o que o equipara aos demais brasileiros), mas como o torcedor “número 1″ (o que busca legitimar a imagem de chefe político diante dos demais brasileiros). Especificamente sobre os períodos citados, há uma visível diferença nos contextos históricos, que se refletem também na forma como compreendemos a seleção brasileira e seu papel (afinal, aqueles 11 homens igualmente vestidos e alinhados nada mais são do que um recorte aleatório de nossa sociedade). Assim, em 1950, a vitória deveria simbolizar antes de tudo nossa condição de país moderno diante das demais nações do mundo, mas, também, para nós mesmos. A perspectiva do brasileiro malemolente, incapaz e preguiçoso (da qual o Jeca Tatu talvez seja o grande exemplo), construída ao longo do século XIX, ainda é muito presente. Neste sentido, construir e mostrar estádios modernos, em cidades modernas para além do Rio de Janeiro e de São Paulo era algo importante dentro de um projeto de construção de um Brasil moderno, mas que deveria ser coroado com a conquista do título. A derrota final assim foi entendida por muitos como a prova definitiva de nossa falta de capacidade, operosidade e engenhosidade, de brios e de fibra, em que pese a organização do certame e a construção do maior estádio do mundo em tempo recorde. Outro é o contexto de 1970, sobre o qual já podemos discorrer e ao qual voltaremos. E outro ainda é o contexto do mundialito em 1981, onde, em que pese a permanência do regime civil-militar, vivíamos já em um momento onde seu declínio era amplamente perceptível. Em 1981 o “Milagre Econômico” que comprara o apoio da classe média brasileira em detrimento das condições de vida da maioria da população já havia passado. A crise econômica era generalizada e não havia indícios de uma luz no fim do túnel. Neste sentido, uma vitória naquele momento representaria não o alinhamento nacional a um projeto político e econômico vitorioso, mas um pequeno momento de alegria diante de um cenário futuro que se apresentava sombrio. O que ajuda a explicar em muito a diferença de percepção entre um momento e outro é que em 1981 os militares já haviam perdido o apoio de boa parte da burguesia brasileira, que anseia pelo momento de tomar as rédeas do país e assim implantar seu próprio projeto de nação, que não era exatamente igual ao dos militares. Ao mesmo tempo, estes já haviam perdido seu fôlego também pela série de denúncias envolvendo a tortura, o assassinato, as prisões arbitrárias, a corrupção, a ação da censura e todos os outros desmandos promovidos ao longo daquela década. Já as conquistas de 1994 e 2002 possuem ainda outros sentidos, vinculados aos anos de euforia neoliberal. Se a conquista nos Estados Unidos foi amplamente comemorada, uma vez que toda uma ampla geração de jovens ainda não era viva quando dos êxitos dos comandados de Zagalo, ela também estava inserida em um período onde o futebol brasileiro recebe a marca de um “futebol pragmático”, objetivo e, por isto, feio de ser visto. O termo “Era Dunga”, surgido após a derrota em 1990 e, por vezes, utilizado como referência a este período, diz respeito não somente a um estilo de jogo, mas também a um contexto onde globalização e crise social e econômicas são elementos presentes. O futebol, como fenômeno social que é, não passa incólume a estes processos. Os jogos passam a ostentar um até então inédito caráter de espetáculo televisivo, o que faz com que os jogadores tenham que se sujeitar a jogar no horário do meio dia em pleno verão norte-americano, pois a televisão assim o exige. Nossos representantes em campo não atuam mais por Grêmio, Corinthians, Flamengo ou Atlético Mineiro, mas por Milan, Juventus, Real Madrid ou Barcelona. O mundo que se mostra menor por causa da tecnologia, também nos mostra nossa incapacidade de permanecer com nossos mais importantes valores. O estilo alegre que teoricamente (e apenas teoricamente) seria uma marca nossa, cede lugar a um estilo que atribuímos ao futebol europeu: pragmatismo, força, o resultado acima do espetáculo. Em 2002, estas características permanecem ou são ainda aprofundadas, uma vez que a espetacularização do futebol pela mídia, transformando-o em um espetáculo cada vez mais rentável, é algo que se aprofunda. Note-se que foi uma seleção campeã com uma campanha absolutamente impecável, mas que em momento algum é lembrada pela beleza de seu futebol.

A seleção vitoriosa sob uma organização militarizada reflete uma sociedade que seria vitoriosa sob a mesma estrutura.

Na Copa de 70, ocorreu uma “militarização” da Seleção Brasileira, com militares sendo colocados em postos chave. Qual foram as razões e os significados desta ação?

Como colocado anteriormente, o potencial de propaganda que uma hipotética vitória poderia ter naquele momento era algo que certamente não escapava aos idealizadores do regime civil-militar. A propaganda positiva daí decorrente poderia facilmente ser capitalizada pelo regime, vendendo a ideia de que tudo ia bem e de que, realmente, éramos “o país do futuro” (Se as pessoas comprariam esta versão, ou quantas comprariam esta versão, é outra história). A colocação de militares em postos chave (preparação física, coordenação, chefia de delegação) está diretamente relacionada a esta percepção. A partir do momento em que este projeto se mostra bem sucedido, a reificação do selecionado em espelho da sociedade brasileira torna-se um passo lógico: a seleção vitoriosa sob uma organização militarizada reflete uma sociedade que seria vitoriosa sob a mesma estrutura.

Em um artigo teu, tu falas que ao menos 30 estádios foram construídos no Brasil entre 1972 e 1975. O que representou para a ditadura e para o futebol brasileiro a construção destes estádios?

A construção destes estádios, muitos dos quais localizados na região nordeste do país, está inserida dentro da ideia de transparecer um clima de modernidade, inerente à figura de um projeto político que se queria vitorioso. Aliás, a organização de grandes eventos esportivos e a realização de grandes obras, como a construção de estádios, estão geralmente associadas a este desejo de se mostrar ao mundo revestido de uma condição de moderno. E só é moderno quem é ao mesmo tempo vitorioso, empreendedor, capaz de grandes feitos e grandes obras. Por outro lado, estes estádios também cumprem uma importante função dentro da ideia de integração nacional. São cenários para que, dentro da lógica do campeonato recém-estruturado, estados com até então pouca representatividade no futebol nacional e com estruturas físicas menores pudessem receber, por exemplo, os jogos da seleção nacional e assim celebrarem a “brasilidade” dentro de casa, identificando-se como partícipes desta comunidade. Os estádios são lugares para vermos, para também para nos reconhecermos coletivamente. Assim, ainda que tais estruturas fossem a partir de então utilizadas pela seleção brasileira somente em amistosos esporádicos, muitos dos quais contra seleções obscuras, deveriam cumprir uma função central dentro do projeto de integração nacional, posto que simbolizariam, materialmente, a inclusão da região em um projeto maior. Contudo, não deixa de ser curioso notar que, em muitos destes casos, a integração pretendida através do binômio “representação no campeonato brasileiro – construção de um grande estádio” ficou longe de representar um maior desenvolvimento do futebol regional, que continuou ocupando um papel de mero figurante nas competições organizadas pela CBD e, posteriormente, pela CBF. É notório, neste sentido, o peso que equipes de São Paulo e, principalmente, do Rio de Janeiro, possuem em alguns estados do nordeste. A existência de um grande estádio público não alimentou as torcidas de CRB, Alecrim, Auto Esporte ou Moto Clube. As razões que levam um clube a postular um lugar ao sol “dos grandes” ou a conquistar admiradores, mesmo que em sua região, não passam necessariamente pela construção de uma grande praça esportiva.

 

A construção de estádios para a Copa difere em algo do modelo militar brasileiro da década de 70?

Trata-se de comparar aqui dois períodos muito distintos entre si. Se formos falar exclusivamente dos estádios, teremos na década de 1970 construções destinadas a receber “o povo”, a “massa”. Eram “estádios”, e não “arenas”, conceito diverso e que pressupõe outro tipo de torcedor e outra forma de torcer. A modernidade da época, materializada pela grandiosidade da obra, não é a mesma modernidade de agora, onde, a grandiosidade pressupõe curiosamente um público menor em favor de outros elementos, como beleza estética, conforto, segurança ou proximidade ao campo de jogo. Algumas questões, no entanto, permanecem. O maior exemplo certamente é o do investimento de recursos públicos em uma atividade que, em última instância, é comandada por organizações privadas (FIFA, CBD-CBF). Não se trata somente do fato de que estes recursos, seja agora, seja na década de 1970, poderiam ter uma destinação outra, cobrindo as históricas deficiências que o Estado brasileiro tem no cumprimento de suas obrigações com a população. Este elemento, por si só complexo, está ao lado de outras importantes questões, tais como a falta de transparência nos gastos públicos, as obscuras relações com empreiteiras que triplicam seus orçamentos ao longo das obras, ou mesmo a real capacidade de utilização de tais espaços ao longo do tempo. Cem quadras esportivas escolares utilizadas em um regime de educação integral seguramente possuem uma função social muito maior do que um gigante de concreto que passará a maior parte do ano fechado ou que quase nunca receba mais do que uma pequena ocupação.

Tu concordas que houve, no Brasil, muito mais uma convivência pacífica entre o futebol (clubes, jogadores, federações) e a ditadura, e até mesmo uma submissão do primeiro à segunda, havendo apenas casos isolados de críticas e resistências? Poderia ser diferente? Em países como a Argentina, por exemplo, a situação foi a mesma?

Há que termos cuidado, pois estamos tratando aqui de três instâncias diferentes. Que as federações (e a própria Confederação) tinham boas relações com a ditadura é algo pacífico. Da mesma forma como me parece pacífico que muitas destas instâncias exemplifiquem hoje a permanência do lixo autoritário nas estruturas sociais e políticas da América Latina. A figura de José Maria Marin na presidência da CBF ou os verdadeiros tribunais de exceção que compõe a estrutura da CONMEBOL falam por si. Os clubes, genericamente falando (mas creio que as exeções realmente sejam poucas) tendem a seguir um mesmo padrão de convivência pacífica, uma vez que seus diretores raramente teriam motivos para se apresentarem como oponentes do regime civil-militar. A presidência de um clube de futebol profissional, seja um dos “grandes”, seja um pequeno clube de representatividade local, é o que podemos chamar de “local de poder”. Ele confere visibilidade a quem o ocupa, ele proporciona exposição midiática, a oportunidade da falar para um grande contingente de pessoal sobre um assunto que encontra solo fértil aos ouvidos. Lugares assim não são ocupados pelo povo simples ou por “contestadores”, mas por elementos socialmente preponderantes. E, na década de 1970, estes elementos estavam, no mínimo, entre os beneficiários do milagre brasileiro. Seria difícil, desta forma, imaginar que alguém que estivesse entre os beneficiários do sistema, ainda que dele não tomasse parte organicamente, fosse manifestar inconformidade em um espaço público de ampla visibilidade. Nisto, o caso argentino, genericamente falando, me parece semelhante, muito embora tenhamos que pensar a argentina sob o jugo de um sistema que produziu algo em torno de 30 mil mortos e desaparecidos. O espaço lá, se havia, era ainda menor.

Em uma época em que a ditadura ainda dava as cartas, falar sobre e demonstrar publicamente o exercício da democracia era algo no mínimo pedagógico para o restante da sociedade.

Na tua opinião, qual foi a real importância de jogadores mais politizados à época, como Afonsinho, Reinaldo, Sócrates, na crítica e na denúncia à ditadura? Ou estes casos são citados mais porque eram jogadores menos comuns na época? Por outro lado, houve jogadores que ajudaram a “referendar” a ditadura militar?

Em primeiro lugar, temos que ter em mente que, segundo cartolas e dirigentes políticos do país, futebol e política são assuntos que não devem se misturar. Isto, obviamente, não resiste a um olhar minimamente atento, dada a quantidade de exemplos de dirigentes esportivos que ascendem a cargos eletivos a partir da direção de clubes de futebol. Esta orientação (que integra mesmo um jargão na cultura brasileira, das coisas que não devem ser discutidas) remete-se, por extensão, aos jogadores. A ampla maioria dos jogadores de futebol do Brasil provém das classes socialmente desfavorecidas e, destas, as elites não costumam esperar (até porque a elas não costumam oferecer espaço para) reflexões de cunho político. Esta expressão, historicamente falando, não cabe ao jogador, que é um funcionário do clube, mas sim ao dirigente, que é, em última instância, o patrão. Neste sentido, poucas eram as manifestações públicas permitidas a estes atletas, o que ajuda a explicar o motivo de ser difícil encontrarmos atletas que tenham referendado a ditadura militar na condição de jogadores. Havia aqueles que, quando perguntados pelos jornalistas, abriram seu voto para a ARENA, mas não ia muito além disto, ao menos publicamente. Outra coisa são as atividades que os jogadores desenvolveram após se aposentarem dos campos de futebol. Talvez o grande exemplo aqui seja o do ex-centroavante Didi Pedalada, do Internacional, que após largar os campos foi trabalhar na Polícia Civil gaúcha e acabou sendo peça importante no sequestro do casal de uruguaios Lilian Celiberti e Universindo Diaz, no final da década de 1970, em uma ação projetada pela Operação Condor.

 

Qual a real importância da Democracia Corintiana para o processo das Diretas? Houve, de fato, uma contribuição?

Creio que sim, mas no sentido do exemplo. Em uma época em que a ditadura ainda dava as cartas, falar sobre e demonstrar publicamente o exercício da democracia era algo no mínimo pedagógico para o restante da sociedade. Era falar de algo que para muitos jovens – pensando no tempo de sobrevivência do regime militar – poderia mesmo parecer utópico.

Que histórias ainda precisam ser contadas e que debates ainda precisam ser feitos sobre futebol e ditadura no Brasil?

Em que pese os estudos relacionando o futebol à história em particular, ou às ciências humanas de uma forma mais geral, estarem ganhando um relativo espaço nos meios acadêmicos, ainda persiste um certo ranço que enxerga este assunto como algo de menor importância, que não merece ser estudado ou que não possui a mesma legitimidade diante de outros assuntos, digamos, “mais acadêmicos”. Apesar disto, diversos trabalhos vem surgindo no Brasil ao longo dos últimos anos, refletindo uma preocupação com um tema que ainda tem bastante por crescer. Dentro destes trabalhos, a ditadura civil-militar instaurada a partir de 1964 tem ganhado um espaço privilegiado, mas isto não significa que o assunto esteja esgotado. Falamos do presidente Médici, do uso que seu governo tenta fazer da conquista de 1970. Mas, e nas pequenas localidades, nos clubes de interior, como estas relações políticas são sentidas por jogadores, por dirigentes, pela imprensa e também pelos torcedores? Não há, que eu saiba, maiores estudos neste sentido. Aqui seguramente há um vasto campo a ser explorado.

Fonte- Publicado originalmente: http://impedimento.org/o-futebol-no-tempo-da-ditadura-entrevista-com-o-historiador-gerson-wasen-fraga/


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