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jul. 07 2014

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Grupo de Trabalho Operação Condor/CEV-PR avança nas investigações em Buenos Aires.

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A coordenadora do Grupo de Trabalho Operação Condor da Comissão Estadual da Verdade do Paraná, Ivete Caribé da Rocha, esteve em Buenos Aires entre os dias 09 e 11 de junho último para aprofundar as investigações: “desde o início vimos trabalhando as interfaces da Operação Condor entre o Brasil (através da tríplice fronteira em Foz do Iguaçu) e aos demais regimes ditatoriais do Cone Sul que cooperavam na busca, prisão, tortura e extermínio de opositores aos respectivos governos militares. Esta viagem foi muito importante tanto no sentido de aprofundar a rede de cooperação para a investigação como para localizar e agregar novos documentos, provas e informações para o aprofundamento dos trabalhos do nosso grupo de investigação”, conta Ivete.

 

Importantes contatos

Adolfo Pérez Esquivel (Prêmio Nobel da Paz 1980).

No dia 09 de julho foi realizada visita, junto com Adolfo Pérez Esquivel (Prêmio Nobel da Paz 1980) ao Chanceler da Argentina Héctor Timermann, onde também conversaram sobre as tropas da Minustah, no Haiti. Nessa ocasião fizeram contato com o Diplomata Federico V. Beltran, Diretor Geral de Direitos Humanos do Ministério de Relações Exteriores. No mesmo encontro foi agendada para o dia seguinte uma conversa com a Dra. Maria Teresa Piñero, responsável pelo Departamento de Recuperação da Memória Histórica do Ministério das Relações Exteriores da Argentina.

 


 

Adolfo Perez Ezquivel e Ivete Caribé da Rocha em encontro em Buenos Aires. Na pauta: Operação Condor.

Adolfo Perez Ezquivel e Ivete Caribé da Rocha em encontro em Buenos Aires. Na pauta: Operação Condor.

Em 1974 na cidade de Medellin, na Colômbia, Adolfo Pérez Esquivel coordenou a fundação do Servicio Paz y Justicia en América Latina (SERPAJ-AL), junto com vários bispos, teólogos, militantes, líderes comunitários e sindicalistas.

O SERPAJ-AL se dedicou a defender os Direitos Humanos no continente e a difundir a Não-Violência Ativa como instrumento de transformação da realidade e de enfrentamento dos crimes de tortura e desaparecimento forçado de militantes políticos e agentes comunitários e pastorais, praticados pelas Ditaduras Militares que haviam se instalado por toda a América Latina, com o apoio dos Estados Unidos que viviam então o auge da Guerra Fria com a União Soviética.

Por essa atividade Adolfo Pérez Esquivel recebeu o Nobel da Paz de 1980. Escultor, estudou arquitetura na Escola Nacional de Belas Artes da Universidade Nacional de La Plata. A partir de 1968, dedicou sua vida a propagar a não violência e defender os direitos humanos: fundou o Jornal Paz e Justiça em 1973, e a partir de 1974 se tornou seu secretário. A publicação se tornou a voz do movimento pacifista na América Latina.

Entre 1977 e 1979, foi preso por questões políticas. Durante esta reclusão recebeu o Prêmio Memorial de Paz Juan XXIII, entregue pela Organização Pax Christi Internacional.

 


 

Ainda na da tarde do mesmo dia, uma conversa com a Jornalista Stella Calloni, apresentada por Adolfo Pérez Esquivel levou a importantes caminhos.

283 com Stella Calloni

Encontro Ivete Caribe e a Jornalista Stella Calloni

Stella Calloni é jornalista, escritora e pesquisadora da Operação Condor e outras Operações que se formaram no período das ditaduras latino-americanas. Realizou cobertura dos conflitos da Nicarágua e de El Salvador e em outros momentos históricos dos vários países. Entre seus livros, destaca-se, “OS ANOS DOS LOBOS”. Possui farto material sobre os casos das vítimas da Operação Condor. Pesquisou e estudou a forma como se implantaram as ditaduras no Continente Latino Americano, os “acordos de cooperação” ajustados entre os vários países, tendo vivido em muitos deles como jornalista.

 

Na manhã do dia 10, Ivete acompanhou Adolfo P. Esquivel a uma entrevista com 20 jornalistas alemães e belgas, junto com o Cacique Felix Diáz, da etnia Quom (Corrientes) Os jornalistas queriam saber sobre a questão indígena na Argentina e sobre a Igreja Argentina, especialmente, onde o Papa Francisco atuou.

Papa

Papa Francisco cumprimenta o líder indígena Felix Diaz e a esposa durante uma audiência privada no Vaticano, junto com Adolfo Perez Esquivel.

Na tarde do dia 10, encontro com Maria Teresa Piñero, no Ministério das Relações Exteriores da Argentina. Maria Teresa, foi exilada política em Genebra, na Suíça, onde trabalhou no Conselho Mundial das Igrejas. Lá teve oportunidade de conhecer toda a documentação enviada pelo Serviço de Justiça e Paz do Brasil e no seu retorno à Argentina, passou a trabalhar na construção da Memória Histórica do País.

302 Mª Teresa Piñero

No Ministério das Relações Exteriores, Maria Teresa Piñero é responsável pelos documentos do período da ditadura Argentina e da Operação Condor, bem como do relacionamento com as Comissões e Comitês Internacionais que tratam das graves violações ocorridas nas ditaduras do Continente Latino Americano. “Maria Tereza se dispôs- a nos fornecer tudo o que tiver sobre os casos solicitados pela CEV-PR. Há uma clara disposição do Ministério das Relações Exteriores da Argentina em fornecer todos os documentos relativos às violações a brasileiros que viveram naquele País e sobre os estrangeiros que foram retirados/seqüestrados do Brasil pelos órgãos de repressão argentinos nas respectivas ditaduras, inclusive os casos de violações autorizadas pelos generais e chefes de Estado. Foi muito importante esse contato”, conta Ivete.

A convite da CEV-PR, Maria Teresa poderá vir a Curitiba, representando o Ministério das Relações Exteriores da Argentina, para contribuir ainda mais com as investigações do Grupo de Trabalho.

Na manhã do dia 11, com companheiros do SERVIÇO DE PAZ E JUSTIÇA – SERPAJ, em sua sede latino americana no centro de Buenos Aires, Ivete conheceu os trabalhos que lá são desenvolvidos a nível Continental, como a Campanha pela Auditoria das Dívidas Externas dos Países latino americanos (no caso do Brasil, com fortes implicações no período da Ditadura Militar), desenvolvido por BEVERLY, com atuação importante no Brasil, através do JUBILEU SUR, as Campanhas pela preservação da Memória na Argentina, com a atuação de Adolfo Pérez Esquivel na Comissão Permanente contra Graves Violações na Província de Buenos Aires. Além disso, conheceu também o trabalho junto a crianças e jovens em situação de risco, no Projeto ALDEIAS DA PAZ, nos arredores de Buenos Aires.

Ainda neste mesmo dia 11, Ivete pode assistir a um Julgamento de Crime da Ditadura (ESMA) no Palácio Judicial da Nação Argentina. Esses julgamentos, têm uma pauta diária, que começa sempre pela manhã e termina por volta das 18 ou 19 horas, com ouvidas de vítimas ou familiares de mortos/desaparecidos, testemunhas e acusados. São instruído os processos para julgamento dos militares, ao mesmo tempo em que se analisam as indenizações devidas. Neste dia o militar julgado foi Ricardo Miguel Cavallo “SÉRPICO”, famoso pelo número de casos em que esteve envolvido e pela truculência de suas ações. Ele já é condenado a prisão perpétua e está preso em Buenos Aires. Foi preso no México onde vivia e tinha uma empresa que prestava serviços ao governo mexicano, com nome e documentos falsos e só foi preso por esse crime em 2009, pois o Juiz Baltasar Garzón Real já o havia localizado e pedira sua prisão por crimes cometidos contra cidadãos espanhóis, mas o governo mexicano se negava a deportá-lo.

 


 

Juiz espanhol Baltasar Garzón

Juiz espanhol Baltasar Garzón

Garzón é conhecido na Espanha como “super-juiz” ou “juiz-estrela”. Atuante Magistrado-Juiz Central de instrução do tribunal penal de máxima instância na Espanha, a Audiência Nacional, ficou conhecido mundialmente ao emitir uma ordem de prisão em contra o ex-presidente do Chile Augusto Pinochet pela morte e tortura de cidadãos espanhóis. Utilizou como base o relatório da Comissão Chilena da Verdade (1990-1991). Reiteradas vezes manifestou seu desejo de investigar o ex-secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger por sua relação com a denominada Operação Condor. Trabalha também em um processo em que se acusa de genocídio diversos militares argentinos pelo desaparecimento de cidadãos espanhóis durante a ditadura argentina (1976-1983.


FOC23.tif A antiga Escola Superior de Mecânica da Armada – ESMA, da Marinha da Argentina, situada na esquina da Avenida do Libertador com a Avenida Santiago Calzadilla, na cidade de Buenos Aires, foi o mais emblemático centro clandestino de detenção durante a ditadura militar (1976-1983).

Tornou-se o maior e mais ativo dos Centros clandestinos de detenção e tortura utilizados pela repressão argentina, por onde passaram mais de 5000 presos, posteriormente, desaparecidos.

Fechado após o retorno da democracia, em 2004 foi convertido pela Lei nº 1.412, de 5 de agosto desse ano, em centro de memória para recordar a repressão, o terrorismo de estado e promover o respeito aos Direitos Humanos.

No Centro Clandestino de Detenção-CCD funcionavam dois grupos-tarefa, o 333, a serviço do SIN (Serviço de Inteligência Naval) e o 332, da Marinha, encarregado da zona norte da Grande Buenos Aires e da Capital Federal, este dirigido pelo contra-almirante Rubén Jacinto  Chamorro, auxiliado pelo capitão Jorge Eduardo Acosta  (el Tigre).

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Os opositores do regime presos clandestinamente na ESMA, após serem Interrogados e torturados, mais de 90% deles foram assassinados, na maior parte sedados e jogados no Rio da Prata, outros fuzilados ou mortos sob tortura, incinerados e enterrados próximo ao campo de desportos do prédio.

Atuaram nesse local 120 assassinos e torturadores, entre os quais Alfredo 

Astiz, Ricardo Miguel Cavallo e Adolfo Scilingo, que dependiam indiretamente do comandante da Marinha, almirante Emilio Eduardo Massera.


 

“Foi uma experiência riquíssima e serviu muito para mostrar como devemos trabalhar de modo cooperativo e com muita persistência, além da valorização da memória e de todas as informações que se puder colher, de forma eficiente e ágil”, sentencia Ivete Caribé da Rocha.

Para o final do mês de agosto próximo, O Grupo de Trabalho coordenado por Ivete pretende realizar em Curitiba um importante encontro com Esquivel, Maria Teresa Piñero, Stella Calloni e outros importantes estudiosos sobre a Operação Condor para consolidar as investigações que instrumentalizarão o relatório final do grupo para a Comissão Estadual e Nacional da Verdade.


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