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set. 23 2014

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IFSC pede desculpas a ex-professor preso e demitido por justa causa na Ditadura

Depois de 36 anos, a reitoria do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC) pediu desculpas publicamente pela demissão por justa causa do professor Marcos Cardoso Filho, preso durante o Regime Militar, por ligações com o Partido Comunista Brasileiro (PCB), acusado de subversão.

Em nome do IFSC, a reitora Maria Clara Kaschny Schneider pediu desculpas ao professor Marcos e sua família FOTOS: Carlos Kilian/Agência AL

Em nome do IFSC, a reitora Maria Clara Kaschny Schneider pediu desculpas ao professor Marcos e sua família FOTOS: Carlos Kilian/Agência AL

Foi em novembro de 2013 que houve a solicitação da Comissão Estadual da Verdade Paulo Stuart Wright, da Assembleia Legislativa, para que o IFSC prestasse esclarecimentos sobre o possível julgamento militar que teria ocorrido na Escola Técnica Federal de Santa Catarina, na década de 1970. “Ele tinha um sonho de um país melhor, e pagou com sofrimento e tortura”, disse a reitora da instituição, Maria Clara Kaschny Schneider, depois da retratação a familiares e ex-alunos de Marcos, demitido da instituição em 1978, após sair da cadeia em liberdade condicional.

“Estamos aqui para pedir desculpas, como instituição, ao que aconteceu ao professor Marcos [Cardoso Filho]. Nós acreditamos que resgatar a história e trazê-la à luz da sociedade é uma das funções da nossa instituição de educação”, declarou Maria Clara na noite desta segunda-feira (22), durante cerimônia realizada na reitoria do IFSC, em Florianópolis. “Nós temos compromisso com a verdade, compromisso com a contextualização e compromisso com a história”.

A iniciativa de reconhecer o erro da instituição partiu de um pedido de esclarecimento da Comissão Estadual da Verdade (CEV), sobre uma sessão militar ocorrida no auditório da então Escola Técnica Federal de Santa Catarina (ETEFSC), nos dias 21 e 22 de setembro de 1976.

Durante o suposto julgamento militar, o professor Marcos Cardoso Filho foi exposto aos alunos que assistiram ao tribunal militar, conforme relatou em depoimento à CEV Nestor Manoel Habkost, ex-aluno do curso de eletrotécnica e, hoje, professor de Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

“Talvez aquilo tenha sido a pior tortura do professor Marcos. Não pôde explicar aos seus alunos por que estava ali. E essa oportunidade nunca lhe será dada”, pontuou Habkost durante a solenidade, onde a emoção marcou muitas falas sobre esta parte da história da Ditadura Militar em Santa Catarina, adormecida por mais de 30 anos.

Nestor Habkost agradeceu a celeridade com que o IFSC investigou e esclareceu parte do fatos ocorridos na década de 1970. Porém o professor acredita que a iniciativa não serve unicamente para fazer justiça à memória de Marcos Cardoso Filho. “É o começo de uma reparação. Acho que não faz justiça ainda, estamos longe dessa justiça. Tem-se de fazer muito para dar o estatuto que esse professor tinha e perdeu por conta de todas essas ações durante o período militar. Ele perdeu a moral dele como professor, foi destruído como professor na Escola Técnica”.

UFSC também deveria se posicionar em relação ao tema, segundo Habkost, já que Marcos Cardoso Filho lecionou na universidade, onde também sofreu discriminações por conta de sua condição de ex-preso político.

“A universidade [UFSC] ainda não deu o devido valor que o professor Marcos merece ter. A universidade não teve a coragem que o IFSC teve, que é enfrentar a verdade dentro da sua história. Só uma instituição forte é capaz de demonstrar que pode enfrentar a sua história”, disparou Habkost.

Investigação na Justiça Militar
A partir do pedido da Comissão Estadual da Verdade, uma equipe do IFSC, coordenada pela jornalista da instituição Ana Paula Lückman, fez uma pesquisa ao processo original da Justiça Militar, que tem 12 volumes e mais de 3 mil páginas, onde foram localizados vários registros da realização da audiência na ETFSC. A indicação do local foi feita à Justiça Militar pela Secretaria de Segurança Pública de Santa Catarina. O relatório das investigações foi entregue a CEV e ao Coletivo Catarinense pela Verdade, Memória e Justiça durante a solenidade.

“Nós descobrimos que, na verdade, aquilo que o professor Nestor Habkost descreveu como um julgamento foi uma audiência da Justiça Militar para analisar o pedido de relaxamento de prisão de Marcos e de outros indiciados na Operação Barriga Verde”, disse a jornalista do IFSC. “Conseguimos facilmente o acesso aos documentos da Justiça Militar, a partir do pedido do IFSC. Ficamos três dias em Brasília, realizando a pesquisa no processo”, lembrou Ana Paula.
Como a 5ª Circunscrição Judiciária Militar, onde corria o processo, tinha sede em Curitiba, e o número de acusados era muito grande optou-se por realizar a audiência em Florianópolis, em um espaço federal como a Escola Técnica, para evitar o deslocamento dos 26 presos, entre eles o professor Marcos, que teve o pedido de relaxamento de prisão negado.

Marcos foi preso preventivamente de novembro de 1975 a novembro de 1977. Seu julgamento foi realizado em 9 de fevereiro de 1978, condenado a três anos de prisão. Em abril daquele ano, teve a liberdade condicional autorizada. Não voltou a lecionar na Escola Técnica, de onde foi demitido em setembro, pelo então diretor Frederico Guilherme Büendgens. Manteve o vínculo de professor da UFSC até sua morte, em 1983, em decorrência de um acidente de barco.

História recontada em documentário
A equipe de comunicação IFSC produziu o documentário “História recontada: Marcos Cardoso Filho e a ditadura na Escola Técnica”, lançado durante a solenidade que homenageou o professor. No vídeo, partes dos documentos da Justiça Militar ilustram os fatos ocorridos em 1976. Ex-alunos e familiares relembram o clima político de repressão da época. “Não podíamos falar do assunto dentro da escola”, revela um deles no vídeo que pode ser acessado neste link, no canal da IFSC TV, no YouTube.

 

 

 

Um dos momentos marcantes do documentário é a narração de trechos da carta denúncia de Marcos, escrita no cárcere da Polícia Militar em Florianópolis. Ele mantinha contato com a família através de bilhetes lançados pela janela da cela. Choques elétricos, pau-de-arara, queimaduras com café nas partes genitais eram instrumentos de repressão no DOI-CODI, sofrido na prisão em Curitiba.

Apesar de sua aptidão para as ciências exatas, Cardoso Filho também tinha forte inclinação à ciência política e militava, desde o final dos anos 1960, no então proscrito Partido Comunista Brasileiro (PCB). Foi sua atuação como militante que o levou a ser preso na Operação Barriga Verde, deflagrada pelo governo militar ditatorial da época para coibir a reorganização do PCB em Santa Catarina.

Homenagem e emoção
A irmã de Marcos, Tereza Cardoso recebeu uma placa de homenagem do IFSC em nome dos familiares. No palco do auditório da reitoria da instituição, que passou a ser denominado Professor Marcos Cardoso Filho, Tereza não conteve as lágrimas ao agradecer o gesto.

“É muita dor, essa lembrança de tudo. Ele lutou por um mundo melhor, onde as pessoas pudessem viver com mais liberdade. Infelizmente ele não pôde viver isso”, declarou.

Representante da Comissão Estadual da Verdade, Neodi Teixeira afirmou que o gesto do IFSC deveria ser repetido por todas as instituições que tiveram participação durante o regime militar. “É importantíssimo esse trabalho. Se todas as instituições e as pessoas que têm memória de um tempo onde as ideias não podiam ser expostas, porque eram pagas com o preço do sangue ou da tortura, resgatassem essas informações, seria importante para deixar como legado para o futuro”.
A Comissão Estadual da Verdade atua no âmbito da Assembleia Legislativa de Santa Catarina.

Perfil
Nascido em Tubarão, em 1950, Marcos Cardoso Filho era engenheiro eletricista formado pela UFSC e começou a dar aulas no curso de Eletrotécnica da ETFSC em abril de 1973. Em 1975, passou a atuar como docente também na UFSC, no Departamento de Engenharia Elétrica – antes, no início dos anos 1970, já havia lecionado Física no Colégio de Aplicação da UFSC e no Instituto Estadual de Educação. Conforme relato de seus familiares, amigos e ex-alunos, Marcos tinha na atividade docente uma de suas grandes paixões.

Morreu aos 33 anos num passeio de barco pela Costa da Lagoa, ao lado do único filho de quatro anos e de outras quatro pessoas, entre elas mais duas crianças. O Mastro da embarcação tocou na rede elétrica de alta tensão, causando o acidente. A cauda mortis indicou que Marcos faleceu devido à descarga elétrica.

Presentes no evento, vário integrantes do PCB bradaram três vezes ao final da exibição do documentário: “Camarada Marcos Cardoso, presente hoje e sempre!”.

Fonte-AGÊNCIA AL


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