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abr. 24 2015

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Ato de memória do navio prisão Raul Soares, hoje, 24/04/2015

convite virtual

 

O Comitê Popular de Santos – Verdade Memória Justiça realiza hoje, dia 24 de abril de 2015, às 18 horas, nas proximidades do armazém 8 (atrás da Alfândega) ato – inserido no Dia de Sítio de Consciência – para lembrar o navio Raul Soares que foi utilizado pelos militares como navio prisão durante a ditadura militar.

 

 

RAUL SOARES O vapor Raul Soares, do Lloyd Brasileiro, atracado no Porto de Angra dos Reis, na década de 1930. Antigo Cap Verde e depois Madeira, da Hamburg-Süd, construído em 1900, era destinado ao transporte de emigrantes para o Brasil, Uruguai e Argentina. Tinha capacidade para oitenta passageiros em primeira classe e quinhentos imigrantes, acomodados em beliches, além de 180 tripulantes. Foi adquirido pelo Lloyd Brasileiro em 1925, para sua linha do Brasil a Hamburgo, na qual serviu durante quarenta anos. Era dotado de uma imensa chaminé, a maior dos navios brasileiros, que o tornava facilmente identificável. Na sua longa vida útil sobreviveu a duas guerras mundiais e teve um fim ignóbil: durante a ditadura militar, em 1964, foi utilizado como navio-prisão para dissidentes, ancorado no Porto de Santos. Um ano depois foi demolido.

O vapor Raul Soares, do Lloyd Brasileiro, atracado no Porto de Angra dos Reis, na década de 1930. Antigo Cap Verde e depois Madeira, da Hamburg-Süd, construído em 1900, era destinado ao transporte de emigrantes para o Brasil, Uruguai e Argentina. Tinha capacidade para oitenta passageiros em primeira classe e quinhentos imigrantes, acomodados em beliches, além de 180 tripulantes. Foi adquirido pelo Lloyd Brasileiro em 1925, para sua linha do Brasil a Hamburgo, na qual serviu durante quarenta anos. Era dotado de uma imensa chaminé, a maior dos navios brasileiros, que o tornava facilmente identificável. Na sua longa vida útil sobreviveu a duas guerras mundiais e teve um fim ignóbil: durante a ditadura militar, em 1964, foi utilizado como navio-prisão para dissidentes, ancorado no Porto de Santos. Um ano depois foi demolido. Fonte: Solaris Editora

 

 

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RAUL SOARES

Navio presídio

A outra face da “Revolução”

Nelson Gatto

Sou uma das milhares de vítimas da quartelada que desabou sobre o Brasil entre 31 de março e 1º de abril.

O depoimento que ora torno público, escrito em papel de embrulho num cárcere imundo de um dos sombrios navios-prisão em que brasileiros foram trancados, tratados como criminosos de alta periculosidade, é a explicação que dou aos meus amigos que, sempre que cruzam comigo, querem saber os motivos dos IPMs aos quais respondo. Sem qualquer pretensão literária, é apenas um documento a retratar o Brasil numa época desgraçada.

Logo após haver sido posto em liberdade por força de habeas-corpus, concedido pelo Superior Tribunal Militar, fui procurado pelo bispo de Santo André, dom Victor de Tarso Sanches Pupo, que, com lágrimas nos olhos e tristeza na voz, me abraçou comovido:

“Não pergunto o motivo de sua prisão. Tenho certeza de que você não saberia explicá-la. Eu também estive preso durante 53 dias sem que me dessem qualquer explicação. A única consideração que me dispensaram foi a de permitir que armasse um altar no xadrez para rezar pedindo a Deus que velasse pelos destinos do Brasil. Fui acusado de ser amigo do povo, de aplaudir as reformas de base tão necessárias para o progresso do país. E é a isso que chamam de revolução cristã…”

Revolução…

Muita gente acreditou nela quando os tanques vieram às ruas. Acreditou em dias melhores, na necessidade de enfrentar os “comunistas” que queriam “mergulhar o Brasil num mar de sangue”, na necessidade de encher os xadrezes para salvar a família brasileira, na moralidade prometida, nos discursos e proclamações da entidade abstrata que denominou a si mesma de “Alto Comando Revolucionário”.

Nada restou das solenes promessas, feitas no calor da tomada do poder por um grupo forte em armas, mas vazio de ideias.

As reformas anunciadas caíram no esquecimento, a soberania nacional foi gravemente mutilada, o governo, dia a dia, se mostra mais rancoroso.

Foram abertas as comportas da remessa dos lucros, contra a qual todos os bons brasileiros sempre se bateram. Comprou-se o “ferro velho” das concessionárias. Golpeou-se a Companhia Vale do Rio Doce, com a concessão de favores inéditos e vergonhosos à Hanna. Sufoca-se a indústria nacional. Esmaga-se o povo pela carestia.

Revolução…

Prendem, perseguem, seviciam, em nome da democracia, com o sacrossanto objetivo de agradar às “mães de família” que fizeram a marcha com “Deus pela Liberdade”…

A nova geração de políticos e líderes brasileiros foi expulsa da vida pública, está na cadeia ou no exílio. A cada momento, a ditadura militar se torna mais evidente. O movimento armado parece ter sido feito contra a cultura, contra médicos, advogados, engenheiros, jornalistas, sacerdotes e estudantes, que continuam enclausurados, em cubículos infectos, manchados de sangue. Nada de especial, como a Lei determina, para presos políticos.

Em um nunca mais acabar, os jornais continuam publicando listas de presos, de perseguidos, de novos exilados. É a prepotência, a distorção jurídica com que se pretende justificar as ameaças, as cassações e mandatos, as violações de lares, o desrespeito à dignidade humana.

E chamam a tudo isso de revolução…

***

Apregoaram que o movimento armado foi feito contra os comunistas e os corruptos. Prometeram, mesmo, uma exposição nacional do material subversivo e do armamento apreendido em poder de trabalhadores. Exposição que jamais se realizou e jamais se realizará, por não terem conseguido reunir material suficiente para impressionar até mesmo os de melhor boa fé.

Armamento algum foi encontrado nas sedes dos sindicatos. Vencida a quartelada, alguns governadores estarreceram a nação ao confessar, publicamente, que eles é que haviam formado “caixinhas”, para arrecadar fundos entre industriais, açambarcadores de gêneros e elementos das chamadas classes produtoras, destinados à aquisição de armas para enfrentar o governo legalmente constituído, que cuidava das reformas de base do país, contrariando, frontalmente, interesses de grandes grupos nacionais e estrangeiros.

Falaram que a revolução foi feita contra os corruptos. Como acreditar em tamanha balela de 1º de abril, se o político-símbolo da corrupção nacional figura como um dos líderes do movimento armado?

Corrupção…

Qual a providência adotada contra os 116 deputados eleitos pelo IPES e IBAD, órgãos criados para solapar as instituições nacionais? O escândalo ficou sobejamente comprovado nos últimos dias do governo deposto. Nada, no entanto, se fez contra os impatrióticos parlamentares.

Corrupção…

Qual maior corrupção do que essa, a grande corrupção política do Brasil?

A “revolução” não provou nenhum grande escândalo do governo deposto. Apenas alguns casos de venda de prestígio, bandalheiras comuns em todos os governos e que estão existindo, também, nesse do honrado marechal Humberto Castelo Branco.

As agremiações partidárias, covardemente, silenciaram ante o tacão militar.

Todas as correntes políticas, de uma forma ou de outra, participaram do governo do sr. João Goulart. Mas como governar, como cuidar dos interesses nacionais, do bem-estar social, se muitos homens públicos, como confessa o próprio sr. Adhemar de Barros, vinham conspirando, de há muito, contra o regime?

Revolução…

Milhares de brasileiros continuam nas prisões políticas, sofrendo toda sorte de coação física e moral, sem julgamento, ou caçados como feras, acuados em seus lares. Mães, esposas e filhos de prisioneiros choram, aterrorizados, sem entender o que ocorre no Brasil.

Engolfado na onda de violências, o povo reza e pede aos céus para que os militares, que tomaram o país de assalto e que, temporariamente, se encontram no poder, voltem para os quartéis, deixando aos civis a administração pública.

O texto acima abre as primeiras páginas do livro RAUL SOARES – Navio presídio, A outra face da “Revolução”, de Nelson Gatto. A versão eletrônica completa do livro pode ser acessada clicando aqui.

 


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