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jun. 22 2015

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O relato de histórias latino-americanas em um país sem memória

a memoria de todos nos

Eric Nepomuceno fala sobre experiências de quem viveu ditaduras na Argentina, Chile e Uruguai. Para ele, Brasil teve ‘memória anestesiada, com a cumplicidade dos meios de comunicação’

por Vitor Nuzzi, da RBA publicado 21/06/2015 

São Paulo – A observação inicial do escritor, tradutor e jornalista Eric Nepomuceno no Memorial da Resistência, em São Paulo, traz um humor semiamargo. “É a primeira vez que entro neste prédio, com a certeza de que vou sair tranquilamente daqui.” E observa que foi diferente com muitas pessoas, inclusive amigos dele, que estiveram lá quando a imponente edificação, inaugurada em 1914, era sede do Departamento Estadual de Ordem Política e Social (Deops) – por mais de 40 anos, até 1983. Virou memorial em 2009. Eric esteve lá neste sábado (20) para falar do livro A Memória de Todos Nós, que acaba de lançar, trazendo relatos de quem passou por ditaduras na Argentina, no Chile e no Uruguai. Países que se confrontaram com o passado, ressalta.

O autor lembra que em meados dos anos 1970 a região só tinha dois países com governos constitucionais, a Venezuela e a Colômbia. Os demais viviam períodos de exceção, situação que começou a mudar nos primeiros anos de década seguinte, interrompendo um longo período de autoritarismo, desencadeado ainda em 1954, com um golpe na Guatemala e, pouco depois, no Paraguai. Antes de entrar no relato do livro em si, Eric faz um primeira reflexão sobre as dificuldades de se avançar no resgate da memória. “Por que o Brasil ficou na rabeira, por que levou 20 e tantos anos para instalar uma Comissão da Verdade? Por que a memória nos incomoda tanto, nos faz mal?”

O livro trata de passagens dolorosas vividas em países vizinhos por Adolfo Pérez Esquivel, Marcia Scantlebury, Macarena Gelman García, Juan Canbandié, Estela de Carlotto. Histórias de quem escapou do “voo da morte”, operações em que presos políticos argentinos eram jogados no Rio da Prata ou no Oceano Atlântico. Um relato de quem ajudou a própria torturadora, grávida, a tricotar uma peça. Ou sobre o sistemático roubo de bebês, também de presos políticos, crianças que foram criadas por outras famílias sem saber quem eram seus verdadeiros pais. Eric lembra que era precisa apagar as histórias e os rastros familiares porque as ideias dos pais poderiam ser hereditárias.

 

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Política de Estado

Estela de Carlotto – que Eric, afetuosamente, chama de “o amor da minha vida” –, líder das Avós da Plaza de Mayo, em Buenos Aires, havia ajudado a recuperar 113 netos, mas não conseguira encontrar o próprio, filho de sua filha Laura, assassinada na prisão após dar à luz e enterrada ainda como “identidade desconhecida” em 27 de agosto de 1978 – apenas um dia depois, a Justiça, respondendo a um pedido de habeas corpus apresentado meses antes, informaria que Laura nunca esteve presa. “Isto (sequestro de bebês) era um plano sistemático. Era política de Estado”, lembra Eric Nepomuceno.

Em agosto do ano passado, Estela encerrou sua busca. Neste caso, como lembra o escritor, “foi o neto que achou a avó”. Desconfiado de suas origens, o músico Ignacio Hurban procurou as Avós da Praça de Maio em junho do ano passado. Foi encaminhado para o Conselho Nacional pelo Direito de Identidade – dirigido, lembra Eric, por Claudia Carlotto, filha de Estela e irmã de Laura. Fez exames de DNA, e no dia 5 de julho ficou sabendo que era, na verdade, Guido Carlotto Montoya, filho de Laura Carlotto e Walmir Oscar Montoya. A avó Estela, com 83 anos, anunciou à imprensa que havia identificado o neto número 114. O seu neto, de 36 anos, que conheceu e abraçou no dia seguinte.

Presa e torturada, a chilena Marcia Scantlebury, já na democracia, foi encarregada pela presidenta Michelle Bachelet de implementar o Museu da Memória e dos Direitos Humanos, inaugurado em 2010. “Foram dois anos de trabalho num país até hoje coalhado de nostálgicos da ditadura, de órfãos e viúvas e viúvos de Augusto Pinochet. E nenhum deles parece disposto a assumir sua responsabilidade histórica”, escreve Eric. “Tudo no Museu da Memória resgata, revela e refaz o que os responsáveis e os cúmplices do terrorismo de Estado ao longo desses dezessete anos (referência ao período 1973-1990) tentaram ocultar.”

Militante política, Marcia foi presa e levada para Villa Grimaldi, conhecido centro de torturas chileno. Foi de certa forma bem tratada por uma carcereira, que depois, nas sessões de tortura, era a que “com mais sanha se lançava contra ela”. Essa mesma mulher, certo dia, tirou-a da cela e pediu ajuda para tricotar uma peça. Sua algoz estava grávida.

Outra história é a de Pérez Esquivel, que ainda não era Nobel da Paz quando, prisioneiro, foi embarcado em um avião para seu último voo, o previsto encontro com a morte. Até que chega uma ordem ao piloto, que muda a rota e leva o prisioneiro para um cárcere de segurança máxima em La Plata.

Eric cita Esquivel: Os povos sem memória desaparecem. O jornalista Milton Bellintani, do Núcleo de Preservação da Memória Política, coordenador de encontro de sábado, observa que a sociedade brasileira nunca conseguiu enfrentar essa questão como deveria. Por isso, observa, “temos uma sociedade profundamente sequelada”.

Alguém questiona Eric sobre a ausência de relatos do Paraguai. “O brasileiro é formado e educado para ter um certo desprezo por todos os países latino-americanos”, responde o escritor. “O Brasil é um dos responsáveis pelo assassinato de um país chamado Paraguai. O Brasil está acostumado a tratar o Paraguai como uma espécie de Mato Grosso do oeste.”

‘O silêncio é cômodo’

Em seguida, fala de heranças do regime autoritário no país. “A liberdade com que se tortura hoje é um legado, uma herança direta da ditadura. Este é um país com amnésia, cuja memória foi anestesiada, com a cumplicidade dos meios de comunicação. O silêncio é cômodo.” O escritor diz considerar a Lei da Anistia “uma vergonha, a mim e a toda uma geração”.

No livro, ele questiona a lei aprovada ainda sob a ditadura e aponta seus efeitos. “Seja qual for o destino que a Lei da Anistia de 1979 for receber no futuro, uma coisa é certa: a Comissão da Verdade não teve poder de punir. Sua contribuição, certamente importante, se restringe a fazer todos os esforços possíveis para recuperar a verdade e resgatar a memória. Não para fazer justiça”, escreve.

Sobre o momento atual do Brasil, ele diz que não anda “nada contente” com o país. “Se você tirar todo o preconceito da direita, ainda assim há um problema sério de conduta”, observa. E mostra receio com o avanço do conservadorismo. “Temo que a gente entre outra vez numa onda que está varrendo levemente a América.”

Um professor comenta que boa parte de seus alunos não gosta de discutir o tema reforma política e alguns até defendem a ditadura. “Eu me nego a aceitar este momento (atual) como ponto final ou síntese de alguma coisa”, afirma Eric.


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